Com sangue nas mãos: o Brasil teve o poder para impedir a invasão do Iraque.

Por José Antonio Lima – The Intercept – Brasil/ Editado p/Cimberley Cáspio

A guerra no Iraque continua após 15 anos sangrentos em que entre 100 e 600 mil pessoas foram mortas, a maioria civis. O conflito ajudou a criar o Estado Islâmico e desestabilizou uma região já frágil diante décadas de intervenção americana. Iraque, Síria, Iêmen, Líbia e Afeganistão são zonas de guerra ativas e muitos outros países da região estão instáveis.

Porém, enquanto todos estavam no julgamento do habeas corpus do ex-presidente Lula no Supremo Tribunal Federal, Donald Trump fez um anúncio que deixou o mundo ainda mais perplexo com seu governo. O novo conselheiro de segurança nacional, cargo decisivo da Casa Branca no que diz respeito ao uso da força militar americana, será John Bolton, um dos arquitetos da invasão ao Iraque comandada pelos Estados Unidos em 2003. Bolton, ex-embaixador da ONU, é conhecido por posturas militaristas extremas e seu desdém para diplomacia. Ele também é uma figura que reanima memórias infelizes nos corredores do Itamaraty em Brasília.

WASHINGTON - AUGUST 1:  (L-R) U.S. President George W. Bush listens to John Bolton speak after being appointed to be ambassador to the United Nations during an event at the White House August 1, 2005 in Washington, DC. Bush has the power to fill vacancies without Senate approval while Congress is in recess.  (Photo by Mark Wilson/Getty Images)

O diplomata brasileiro José Mauricio Bustani relatou em uma entrevista à BBC, que quando presidente reeleito da OPAQ(Organização para Proibição de Armas Químicas) em Haia, Holanda, não conseguiu completar seu mandato, graças a uma intensa campanha nascida no seio da administração de George W. Bush. Um dos personagens centrais da cruzada foi John Bolton, o agora conselheiro de Trump, que, na época, era subsecretário de Estado para o Controle de Armas.

“Ele entrou no meu escritório, me ameaçou e deu 24 horas para que eu renunciasse”, relembra Bustani em entrevista ao The Intercept Brasil. “Foi um ultimato. Ele disse: ‘Nós sabemos onde estão seus filhos’. Na época, os dois estavam em Nova York, nos Estados Unidos. Eu respondi: ‘Eu não tenho medo de nada e nem eles. Se vocês quiserem, me ponham para fora”. Em 2013,o jornal The New York Times, confirmou o encontro.

O embaixador José Maurício Bustani durante entrevista no Palácio do Itamaraty, em Brasília (DF). (Brasília (DF), 12.03.2003. 18h30. Foto de Lula Marques/Folhapress)

O embaixador José Maurício Bustani durante entrevista no Palácio do Itamaraty, em Brasília (DF) em março de 2003. Foto: Lula Marques/Folhapress

A reunião aconteceu no início de 2002, pouco depois dos atentados terroristas do 11 de Setembro. A atrocidade, que chocou e transformou o mundo.

Além da organização comandada pelo saudita Osama Bin Laden, o governo dos Estados Unidos incluiu em sua lista de inimigos o regime de Saddam Hussein no Iraque, que nada teve a ver com o ataque, nem seu idealizador.

Aquele episódio foi visto, entretanto, como uma janela de oportunidade para um grupo de integrantes da ala neoconservadora do Partido Republicano, obcecada com Saddam e com a “missão incompleta” de Bush pai, que deflagrara a Guerra do Golfo no início dos anos 1990, mas retrocedera antes de derrubar o ditador iraquiano.

Ao longo de 2002 e 2003, essas pessoas enganaram a opinião pública internacional com “evidências” falsas dos planos de Saddam e, assim, justificaram a invasão. Não existia arsenal de armas químicas no Iraque.

No início de 2002, quando Bolton visitou Bustani na Holanda, seu papel era determinante na empreitada dos homens de Bush para tentar convencer o mundo de que Saddam Hussein era uma ameaça por supostamente possuir armas de destruição em massa. O diplomata brasileiro diz que virou alvo de Washington quando obteve do governo iraquiano, no fim de 2001, um aceno positivo a respeito da possibilidade de aderir à Convenção das Armas Químicas. Isso obrigaria Bagdá a listar todo seu arsenal e permitir a entrada de funcionários da Opaq. “Se eu entrasse com os meus inspetores e mostrasse que não havia nada, a lógica da invasão acabaria”, diz Bustani.

“Bolton disse então que tinha um acordo com o governo brasileiro, eu disse que desconhecia isso, mas depois vi que era verdade”, afirma. Para o diplomata, o então ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Lafer, recebera de Fernando Henrique Cardoso uma ordem de não desagradar os americanos”.

A ideia de Washington, segundo ele, era ter liberdade de ação no Iraque sem as amarras das organizações internacionais, empreitada que a atuação do diplomata brasileiro poderia atrapalhar.

Neste contexto, diz Lafer, o governo FHC examinou a questão e decidiu tratá-la apenas no plano multilateral. “Decidimos que não faríamos disso um tema da agenda bilateral com os Estados Unidos e assim o fizemos, defendendo a manutenção do Bustani na posição”. A defesa foi de todo fraca. Nas palavras do próprio Lafer, os EUA “passaram um rolo compressor” na votação da Opaq.

Após sua destituição, Bustani se voltou contra Lafer e FHC. Na entrevista ao canal britânico BBC, acusou o Brasil de abandoná-lo. Como resultado, foi destituído também da posição de cônsul-geral em Londres, para onde tinha sido enviado de forma temporária.

Em 2003, a Organização Internacional do Trabalho julgou uma reclamação de Bustani contra sua remoção da Opaq. Para a OIT, o processo liderado por Bolton foi ilegal e nulo. O diplomata brasileiro recebeu uma indenização, que doou à própria Opaq.

Atualmente aposentado, Bustani avalia que a nomeação de Bolton para o cargo de conselheiro de segurança nacional é um “grande equívoco” de Trump. “Ele não tem a capacidade nem o talento para esse cargo. É um homem bruto e brutal, desajustado e desequilibrado, não é de diálogo,” afirma. Nisso, Celso Lafer concorda. “Vejo essa nomeação com muita preocupação”, diz o ex-ministro. “É uma personalidade pouco afeita ao diálogo diplomático”.

Artigo Completo no link: theintercept.com/2018/03/28/trump-jose-bustani-john-bolton-iraque/

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