O grande e tenebroso pecado do nordeste.

Por Talita Lopes Cavalcante – Editado p/Cimberley Cáspio

Em 1915 um terrível episódio assolou o sertão nordestino. Mais uma vez,  a seca fez com que diversos nordestinos migrassem para as grandes cidades. O governo cearense a fim de evitar uma onda de esfomeados na cidade, resolveu se precaver de uma maneira desumana. Criou oficialmente os primeiros currais humanos, campos de concentração em regiões separadas por arames farpados e vigiadas 24 horas por dia por soldados para confinar as almas nordestinas retirantes castigadas pela seca.o-povo-campo-concentracaoNotícia sobre o Campo de Concentração dos Flagelados, publicada no Jornal O POVO, em 16/04/1932.

A oeste da cidade de Fortaleza foi erguido, então, na região alagadiça da atual Otávio Bonfim, o primeiro campo de concentração brasileiro. Ali ficaram confinadas cerca de 8 mil pessoas com alimentação e água controladas e vigiadas pelos soldados do Exército. Naquele mesmo ano de 1915, após incentivos para que os retirantes migrassem para a Amazônia, o curral humano foi desativado.

Cerca de 17 anos mais tarde, em 1932, foi a vez de reabrir o campo de concentração de Otávio Bonfim e criar novos currais humanos. Naquele ano, outra grande seca castigou novamente o sertão nordestino, fazendo com que, mais uma vez, milhares migrassem para os grandes centros urbanos. Após dezessete anos, nem o governo federal, nem os governos estaduais haviam se precavido para diminuir os efeitos da seca, e a solução, novamente desumana, passou a ser a criação e ampliação dos campos de concentração nordestinos.

vítimas da seca

Vítimas da seca. Corpos de crianças e adultos jaziam ao lado da linha férrea que levava para o Campo de concentração de Senador Pompeu.

O que os jornais da época diziam é que mais de 60 mil pessoas, a maioria crianças, morreram de fome nesses campos de concentração. De forma assustadoramente parecida, as cenas brasileiras dos currais humanos lembravam bastante os campos de concentração nazistas. À época, pedir um prato de comida na rua já era passível de prisão e levado para o campo de concentração.Os que morriam nas viagens em direção ao inferno construído naquela ocasião pelo governo brasileiro, para matar brasileiros, inclusive crianças, em que o único crime que cometeram era estar com fome, eram jogados literalmente às margens da ferrovia a fim de terem seus corpos devorados por aves de rapinas.

Pela segunda vez, foram erguidas regiões cercadas por arames farpados e vigiadas diariamente por soldados para confinar os nordestinos afetados pela seca. Corpos magros, de cabeças raspadas e numeradas se apinhavam aos montes dentro dos cercados de Senador Pompeu, Ipu, Quixeramobim, Cariús, Crato (ou Buriti, por onde passaram mais de 65 mil pessoas) e o já conhecido Otávio Bonfim, os maiores currais humanos instalados no Brasil para conter a massa castigada pela seca dos anos de 1915 e 1932.

desnutrição extrema

Criança vítima da fome e da violência do campo de concentração nordestino.

Poema “Campos de Concentração no Ceará”, por Henrique César Pinheiro.

No Estado do Ceará

A exemplo do alemão

Houve por aqui também

Campo de concentração

Lá era pra matar judeu

Aqui o povo do sertão.

Na seca de trinta e dois

Criamos uns sete currais

Para evitar que famintos

Criassem problemas sociais

E pudessem invadir

Na capital seus mananciais.

Currais foram construídos

Em Senador Pompeu, Ipu, Quixeramobim e Crato, Fortaleza e Cariús.

Fortaleza teve dois Otávio Bonfim, Pirambu.

Pessoas foram confinadas

Como bando de animais.

Tinha a cabeça raspada

Sacos de açúcar, jornais

Era o que lhes serviam

Como vestes mais usuais

Sem nome, ou identidade,

Chamados por numerais.

Desta maneira estavam

Registrados nos anais.

Só se comia farinha,

Rapadura nos currais.

Toda essa gente foi presa

Sem ter crime praticado

E para isto bastava

Somente estar esfomeado.

Pedir prato de comida

Que seria logo enjaulado.

E controlados por senhas,

Pelas forças policiais.

Quem entrava não saía,

Senão pros seus funerais.

Sessenta mil lá morreram.

Nos registros oficiais.

Para aqueles locais,

todas pessoas foram atraídas.

Com promessas que seriam por médicos assistidas,

Que teriam segurança

E fartura de comidas

Experiência que houve Somente aqui no Ceará.

Que se iniciou em quinze

Naquela seca de torrar

Depois disso os alemães

Trataram de aperfeiçoar

Alguns campos projetados

Para abrigar duas mil pessoas

Dezoito mil chegou alojar.

Presos por vilões e viloas,

Felizes os governantes

Ainda cantavam suas loas.

Em Ipu todos os dias

Morriam de sete a oito.

A maioria era de fome

E até por ser afoito,

Nas tentativas de fugas,

Pro que não havia acoito.

Nas décadas posteriores,

Pra mudar essa imagem,

governos criaram albergues para evitar sacanagem,

mesmo assim pouco funcionou pois sempre há malandragem.

E o povo nordestino ainda de pires na mão,

espera de todos governos pro problema solução.

Agora estamos na briga pela tal transposição.

Ceará de Terra da Luz

É chamado no Brasil.

Foi nosso primeiro estado

Que escravatura aboliu

Pra isso não foi necessário

Nem mesmo usar um fuzil.

Mas a geração atual

Tem que redimir o erro

De governantes passados.

Não permitir o desterro

De seus filhos pra terra alheia onde muitos acham o enterro.

Henrique César Pinheiro/ Fortaleza/março/2008

Fonte: @museudeimagens no Instagram e acesse para saber mais: http://www.museudeimagens.com.br/grande-seca-do-nordeste/ .

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