1 milhão e 200 mil brasileiros voltaram a cozinhar na lenha.

Por Álvaro Caldas – Jornalista e escritor/Jornal do Brasil

Num país sem governo, em que o presidente da República se transformou num fantasma, com o presidente da Petrobras liberado para executar uma gestão voltada exclusivamente para os interesses do mercado e praticar uma política de preços terrorista, o Brasil entrou em parafuso. Este é o noticiário dominante na imprensa há mais de dez dias, deflagrado pela chamada greve/locaute dos caminhoneiros. Iniciado com o golpe que afastou Dilma Rousseff em 2016, o governo acabou. Essa é uma constatação unânime, seja da esquerda, direita ou do centro. Nelson Rodrigues disse que toda unanimidade é burra, mas neste caso os fatos negam seu talento de grande frasista. Resta saber o que fazer com os fantasmas encurralados em Brasília, que ainda terão pela frente dois acontecimentos capitais, a Copa do Mundo na Alemanha e as eleições de outubro.

Em meio a esse colapso inédito, comprovou-se o grau de abandono em que se encontra o brasileiro, este cidadão humilhado, desalentado, desempregado, torturado em seu dia a dia. Vítima maior desse momento de convulsão e de um desastre político e social que o antecede. Identificado pelas estatísticas como a parte que mais cresce no conjunto da população, esse grupo denominado de miseráveis permanece anônimo e invisível. Não é notícia nem mesmo para anunciar sua morte.

Cerca de um quinto dos brasileiros vive à margem do sistema econômico. São 13,4 milhões de desempregados, segundo os últimos dados do IBGE, e cinco milhões à procura de emprego há mais de um ano, num crescente processo de exclusão social que lhes retira toda esperança. Com sua situação de penúria agravada pela crise, os excluídos e sem direitos não têm o que comer, onde trabalhar, onde dormir, dar educação aos filhos. Ir ao dentista, comprar um tênis, namorar e fazer amor, nem pensar. Transformados em párias,tiveram sua humanidade sequestrada.

Trata-se de uma tragédia eloquente e assustadora, embora invisível, a não ser quando os moradores das cidades deparam-se com homens, mulheres e crianças dormindo nas ruas. Os temas colocados em discussão pela mídia são os mesmos de sempre, corrupção, Lava Jato, disputas mesquinhas entre candidatos e partidos políticos. Depois da falência do comunismo,o capitalismo tupiniquim é implodido por uma greve de caminhoneiros que assumiu grandes proporções, no que poderia de novo ser chamado de o fim da História. É ilusória a crença em sociedades perfeitas.

Atônito, o país está diante da segunda morte do presidente Temer, qual Quincas Berro D´Água, personagem de Jorge Amado. Da primeira, quando encontrou Joesley Baptista no porão do Palácio Jaburu, na noite de 7 de março de 2017, conseguiu escapulir. Na repetição do ato fúnebre, derrubado, ele foi a nocaute, deixando claro para a plateia que o combustível do golpe acabou. Perdeu o apoio parlamentar, da mídia e da direita que o sustentava. Até Rodrigo Maia pulou fora.

Isolado no bunker com ar-refrigerado no Palácio do Planalto, em Brasília, seu governo ficou reduzido a três tristes ministros, Moreira Franco, Eliseu Padilha e Carlos Marun, com a companhia do general Sérgio Etchegoyen, do gabinete de Segurança Institucional. Golpe militar nem pensar. Etchegoyen avisou que intervenção militar é coisa do século passado, acrescentando que o século 21 está divertidíssimo.

Na base do abalo sísmico, o tucano Pedro Parente criou as condições para o terremoto. Graças a ele, a Petrobras perdeu 126 bilhões em valor de mercado em menos de uma semana. Com sua política de aumentos seguidos do botijão de gás de cozinha, 1,2 milhão de brasileiros voltaram a cozinhar com lenha. Também graças a ele o preço do diesel, acoplado à cotação do barril no mercado internacional, passou a ter aumentos diários, estopim para a deflagração da greve.

O tecnocrata Pedro Parente pode ser o que ele quiser, um liberal, um neoliberal, um ultraliberal, o escambau, mas não pode destruir a Petrobras, que é muito maior do que ele, deixando a população sem comida e sem condução para se deslocar. A questão de fundo é que ele não sabe o que é o Brasil. Seu vínculo, sua referência única, é o mercado, e o brasileiro excluído e invisível não está nesse mercado.

Fez o que quis porque o Brasil, com o golpe parlamentar, deixou de ter um presidente eleito. Ou seja, um homem ou uma mulher com visão política e respaldo popular, que lhe dissesse o que fazer ou o mandasse pegar o boné e assumir a assessoria de uma multinacional.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s