O coronelismo ainda ativo na política do agreste nordestino. “Manda quem pode, obedece quem tem juízo.”

 Por Amanda Audi – Intercept-Brasil

Em Queimadas, uma cidade de 41 mil habitantes no agreste da Paraíba a 141 km de João Pessoa, onde a renda média mensal de um trabalhador é de R$ 292,50, vive a família Rêgo; os donos do poder econômico e político local.

Paulo Rogério – ou Doda de Tião, como é conhecido pelos moradores, faz parte de um grupo imenso, o dos políticos que voam abaixo do radar da cobertura da imprensa e que detêm poder real em mãos, capaz de afetar diretamente a vida de milhões de pessoas.

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Foto: Janine Moraes/The Intercept Brasil

Doda foi o político eleito em 2014 que teve o maior aumento percentual de patrimônio durante o mandato, com curral eleitoral em cidades de até 100 mil habitantes, a esmagadora maioria no país. Sua riqueza cresceu 716% em quatro anos, passando de pouco mais de R$ 500 mil para R$ 4,5 milhões, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral.

Doda está concorrendo ao terceiro mandato como deputado estadual. Em 2010, quando se elegeu pela primeira vez, declarou patrimônio de apenas R$ 10 mil, valor bizarramente atribuído a um avião que, nos anos seguintes, desapareceu de suas declarações. Na eleição de 2014, informou ter R$ 557,5 mil em terrenos, imóveis e contas bancárias. Já em 2018, após dois mandatos na Assembleia Legislativa da Paraíba, disse ao TSE possuir R$ 4,5 milhões – quase a metade em dinheiro vivo. Da primeira eleição até agora, seu patrimônio declarado já cresceu 450 vezes.

O sucesso de Doda, na política e nos negócios, está intimamente ligado à sua família.

A história de como os Rêgo dominaram a região nos últimos 40 anos combina os seguintes ingredientes: água, leite, emprego e dinheiro, muito dinheiro. E um pouco de cocaína.

O alto poder de Queimadas

o prefeito José Carlos, o Carlinhos de Tião, que está no segundo mandato. O secretário de infraestrutura Joventino, que já foi prefeito de uma cidade próxima, e Maria do Socorro Rêgo, esposa do presidente da Câmara Municipal e coordenadora da campanha pela reeleição de Doda. Todos são irmãos e filhos de uma lenda local: Tião do Rêgo, ex-prefeito e vereador da cidade, falecido em 2006. Por causa dele, todos os Rêgo usam o sufixo “de Tião” como nome de guerra na política.

Carlinhos de Tião

Em um  café na casa de sua mãe, Doda me explicou que seu patrimônio cresceu porque os negócios particulares prosperaram durante os seus mandatos na Assembleia. Ele é dono de um supermercado e de uma fábrica de postes e possui imóveis alugados e terrenos. Mas o negócio mais tradicional da família é a distribuição de água.

Antigamente, boa parte da distribuição acontecia direto do açude da família, hoje já quase seco. Atualmente, o abastecimento passou a ser feito com caminhões pipa, e o serviço é coordenado pela prefeitura comandada por Carlinhos de Tião – são os Rêgo que determinam quem vai receber água no município, um dos mais secos do país, com índice pluviométrico que não passa de 600 mm por ano (menos da metade do Rio de Janeiro, por exemplo). Doda é chamado de “o deputado das águas”.

A matriarca da família, Maria da Paz, a Dadá, tem um caderno em que anota os nomes de quem pede visita do caminhão. Ela é conhecida como a “vereadora das águas”, mesmo que jamais tenha ocupado cargo público.

Resultado de imagem para Foto: Maria do Socorro Rego

Foto: Janine Moraes/The Intercept Brasil

Por causa do prestígio, os Rêgo apadrinham crianças de outras famílias, um costume das oligarquias do interior do Nordeste. Eles são “padrinhos” de mais de 2 mil crianças. Ao aceitarem um novo afilhado, doam leite, um símbolo de riqueza. Ainda hoje, Dona Dadá mantém garrafas pet com leite, ordenhadas in loco, para oferecer às várias pessoas que passam por sua casa todos os dias pedindo ajuda.

A influência é tão presente que não é raro encontrar fotos do patriarca Tião do Rêgo nas casas dos moradores da região, penduradas nas paredes ou em cima de móveis, geralmente ao lado da do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em sinal de fidelidade.

Maria do Socorro, irmã de Doda e sua coordenadora da campanha, me contou que eles têm ainda outro privilégio: saber o resultado das urnas antes do anúncio oficial. Queimadas tem cinco sessões eleitorais e os fiscais de urna, ao fim da votação, logo depois que o resultado de cada sessão é impresso e enviado para o TSE, “correm para a casa” dela. Os votos dos relatórios dos pouco mais de 31 mil eleitores são então contados manualmente pelos membros da família.

Em uma cidade na qual ao menos um em cada cinco moradores depende do Bolsa Família, os Rêgo são donos dos maiores empreendimentos locais, o que inclui supermercados, pedreiras, lojas de material de construção, madeireira, cartório, farmácia, padaria, casa de eventos, fábrica de postes, terrenos e fazendas – na Paraíba e na Bahia.

Eles são os maiores empregadores da região: um batalhão de 2 mil pessoas, de acordo com a família. O número é alto se considerarmos o total da população com carteira assinada na cidade, segundo o IBGE, que era de 3,3 mil pessoas em 2016.

Além da distribuição de empregos, os Rêgo também se valem da velha tática da troca de favores. Quando circulam pela cidade, recebem uma enxurrada de pedidos: vaga em hospital, emprego para um parente, o pagamento de uma conta de luz, um dinheirinho… Também não há pudor deles em fazer promessas, mesmo na nossa frente.

Eu testemunhei uma série de ligações em que Socorro atendia uma mulher que se apresentava como Marica. Ela pedia uma vaga para o marido em um hospital em Campina Grande. “Eu estou tentando, mas hospital grande é mais difícil. Se fosse aqui a gente resolvia. Mas tenha paciência que vamos dar um jeito”, disse a ela.

Doda também recebe pedidos. Ele diz que só vai ao seu supermercado de manhã cedo ou no fim do expediente para evitar multidões. “Se eu aparecer lá de tarde, aparecem 30 pessoas. O desemprego aqui é muito grande, o povo é sofrido. O que tem de gente pedindo coisa… Eu gosto de ajudar, mas tem horas que chega tanta gente que a gente não pode nem dar aquela assistência ao coitado.”

O prefeito Carlinhos diz que é menos assistencialista do que o pai costumava ser. “Quando ele era prefeito, não eram nem 5h da manhã e já tinha 20, 30 pessoas no portão de casa pedindo água, leite… Pareciam zumbis”, contou, sentado em uma cadeira de balanço na varanda da casa de sua mãe. Pouco antes, um casal havia passado por nós e pedido emprego para um terceiro.

Ele relata que atende pedidos quando a pessoa realmente precisa do favor. “Mas eu faço do jeito certo, com registro na prefeitura da verba para doação.”. Pergunto se o prefeito pode usar dinheiro do município para interesses particulares. “Se for verba própria da prefeitura, de impostos etc, pode”.

Seguimos com o prefeito até o Master, seu supermercado, o maior da cidade, na avenida principal. Em um dos corredores, uma mulher lhe pede R$ 100. Ele a orienta a procurar a assistência social da prefeitura e dizer que ele a mandou.

A sala de Carlinhos, assim como as de Doda e Socorro em seus respectivos negócios, ficam em um plano elevado e são envidraçadas, de modo a permitir uma visão de cima – e também para serem vistos. O espaço foi decorado com troféus de vaquejada e garrafas de bebida. A sala de Socorro tem fotos do pai, seu ídolo. Já a de Doda, no supermercado, é tratada como “gabinete”, onde recebe aliados.

No mesmo terreno do Master, há uma unidade do Subway e uma loja de artesanato, ambas de Carlinhos. Atravessando a rua, enxergo outro grande supermercado, o Sacolão. Este é de Doda. Alguns metros adiante, fica a loja de material de construção de Socorro.

Nenhum dos estabelecimentos, porém, está em nome dos verdadeiros donos.

Os bens foram distribuídos entre funcionários da prefeitura e outros membros da família. O Sacolão está registrado no nome da esposa de Doda, Delúsia, e de uma cozinheira que recebe R$ 954 por mês, além do Bolsa Família.

A loja de materiais de construção pertence oficialmente ao filho de Socorro, Ricardo, e a um vigia que também recebe menos de R$ 1 mil por mês. No papel, o Master é da mãe deles, Dadá, e do irmão mais velho, Roberto Carlos, que teve uma doença quando criança e não atua nos negócios da família.

Há 21 anos na cidade, o mais próximo que a justiça e o promotor local, Marcio de Albuquerque, chegou de incomodar os Rêgo – com quem mantém relações cordiais – foi em um caso de homicídio. Em 2012, um colaborador da campanha de Carlinhos, Sebastian Coutinho, teria sido morto como queima de arquivo, de acordo com a mãe do rapaz. Ela entregou fotos de Carlinhos junto com um dos suspeitos do crime mas, segundo o promotor, elas não foram suficientes para provar a participação do político. Quer dizer, não houve interesse em investigar o fato.

O emaranhado de propriedades suspeitas é denunciado por dentro do clã. José Ricardo Rêgo, conhecido como Preá, é irmão de Doda e Carlinhos, mas brigou com a família no começo do ano e se aliou ao opositor, o também candidato a deputado estadual Jacó Maciel, do Avante.

Encontramos com Preá na pedreira Britamix, em Massaranduba, a cerca de 40 quilômetros de Queimadas. Preá estava com uma camisa laranja suja de poeira com o logotipo da construtora Camargo Corrêa. Conversamos com ele em sua sala, um contêiner improvisado de onde vê o trabalho na pedreira. Várias vezes ele nos mostrou as mãos calejadas, justificando que trabalha pesado. Ele pediu licença, durante a entrevista, para cheirar cocaína do lado de fora da sala.

Preá vive com medo de sofrer uma emboscada armada pelos irmãos. Em alguns momentos da conversa, fazia movimentos demonstrando que estava armado. Quando falava sobre assuntos sensíveis, abaixava o tom de voz. Achava que estava sendo grampeado.

A operação da família é muito semelhante aos moldes do coronelismo, comum no Nordeste no início do século 20, mas adaptado a uma nova versão. Antigamente, o coronel exercia poder em uma localidade por meio da troca de favores, concedidos apenas a quem lhe fosse fiel. As principais moedas de troca eram, como no caso dos Tião, a água, o leite e o apadrinhamento.

“Era de costume as pessoas carentes e os mais necessitados atribuírem seus filhos a uma dessas famílias tradicionais, visto que além da ‘proteção’ e ‘segurança’, o leite já estava garantido para a criança”, escreveu José Marciano Monteiro em sua dissertação de mestrado, de 2009, sobre o poder da família Ernesto-Rêgo em Queimadas.

Hoje professor da Universidade Federal de Campina Grande, Monteiro continuou o estudo no doutorado. No livro “A política como negócio de família”, traçou a árvore genealógica dos ‘Tião’ e encontrou semelhanças no modo de agir deles e de outras famílias poderosas do interior do país.

Estabeleceu um paralelo: o poder das famílias se retroalimenta. Elas são donas do poder  político de um local e com isso saem na frente para conquistar o poder econômico. E vice-versa. A lógica é igual à da bolacha Tostines: não se sabe se o poder econômico garante o sucesso nas urnas ou se o sucesso nas urnas é que faz os negócios crescerem.

“São verdadeiras dinastias políticas que se revezam no poder e dominam o Estado, recortando o território por meio de ‘nomes de família’”, escreveu. A renovação na política nestes locais, segundo Monteiro, é apenas geracional.

A diferença entre as situações encontradas hoje e o coronelismo no passado é que o poder agora, ao menos aparentemente, precisa passar por outra instâncias. “Antes o coronel determinava quem ia receber água de seu açude. Agora, os vereadores controlam a distribuição por meio de carros pipa”, citou como exemplo.

Doda diz que esta deve ser a sua última eleição, pois quer se aposentar. Ele tem 51 anos. “Eu estou deixando de viver por causa da política. Tenho um apartamento em João Pessoa e não vou pra praia há mais de um ano.”

Link da reportagem: theintercept.com/2018/09/26/sua-familia-controla-a-agua-o-leite-e-o-subway-comemos-uma-cabeca-de-bode-com-doda-de-tiao/?utm_source=The+Intercept+Brasil+Newsletter&utm_campaign=0d505f500f-EMAIL_CAMPAIGN_2018_09_29_01_59&utm_medium=email&utm_term=0_96fc3bd6d5-0d505f500f-132086973

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