O coronelismo se adaptou, e ainda mantém a política refém de seus interesses.

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Por Ygor Coelho – Quora.com

O coronelismo é um fenômeno nacional e na verdade continental (latino-americano) – conhecido pelos nossos vizinhos hermanos mais como caudilhismo -, e não um resultado exótico das especificidades culturais e políticas do Nordeste do Brasil. Há alguns à moda antiga (e no geral eles próprios antiquados), como Sarney e Henrique Eduardo Alves, mas alguns modernizados e mais, digamos, sofisticados, como Tasso Jereissati.

Há também coronéis, com suas famílias quatrocentonas que vivem gerações sucessivas de dinastia política e têm influência não só na política estadual, mas também na imprensa, no Judiciário e na economia local, em regiões rurais e grotões semiurbanizados diversos Brasil afora, do Norte ao Sul do País. É importante salientar, porém, que coronel não é uma “liderança local bruta e mandona” ou qualquer “político autoritário”, tampouco apenas um “filho de político famoso”.

O “coronelismo” é pura e simplesmente isto conforme diz o dicionário:

“Prática de cunho político-social, própria do meio rural e das pequenas cidades do interior, que floresceu durante a Primeira República 1889-1930 e que configura uma forma de mandonismo em que uma elite, encarnada emblematicamente pelo proprietário rural, controla os meios de produção, detendo o poder econômico, social e político local.”

O problema é que muitas pessoas esperam encontrar um coronel tal qual o do estereótipo nordestino ou caipira, o do cabra macho pouco refinado, meio bruto, antiquado e desbragadamente autoritário. Mas o coronelismo também sabe se adaptar às mudanças do País para sobreviver e continuar tendo poder.

Enquanto isso, há muito de preconceito pouco refletido na concepção do que é um “coronel”. Assim, por exemplo, Ciro Gomes, cearense, com sotaque inconfundivelmente nordestino, é rotineiramente criticado como um coronel por um motivo que não qualifica ninguém como herdeiro do coronelismo (temperamento esquentado, uso de expressões idiomáticas regionais, etc.) ou por uma razão (a de que tem vários irmãos políticos que atuam juntos buscando hegemonia no Estado há mais de 30 anos, embora seu pai tenha tido uma carreira política curta, como prefeito de Sobral por 6 anos.

Há também outros casos, como por exemplo  bem mais escabrosos como da família Amin de Santa Catarina, que forma uma verdadeira dinastia hegemônica em nível local: a família Amin acumula quatro mandatos na prefeitura de Florianópolis em 40 anos: além das duas administrações de Angela, de 1997 a 2004, foi administrada pelo marido dela, Esperidião, em 1975 e 1989.

João Amin, filho do casal, eleito vice-prefeito em 2012, conciliou o cargo com a Secretaria de Obras até 2014, mas teve pouca visibilidade e decidiu exercer mandato de deputado estadual.

Além da prefeitura, os Amin somam 11 mandatos de vereador, deputado, governador e senador em 40 anos.

Na verdade, esse não é um caso excepcional, nem mesmo o pior de todos, pois há políticos brasileiros cujas famílias têm tradição de envolvimento e influência na política há mais de século, remontando em alguns casos até ao período colonial.

A discussão ilustra um mecanismo muito antigo da política nacional e especialmente significativo na atual legislatura na Câmara. De teor fortemente conservador, ela é também a que possui maior percentual de deputados com familiares políticos desde as eleições de 2002. Um estudo da Universidade de Brasília (UnB) publicado no segundo semestre de 2015 analisou os 983 deputados federais eleitos entre 2002 e 2010 para concluir que, no período, houve um crescimento de 10,7 pontos percentuais no número de deputados herdeiros de famílias de políticos, atingindo 46,6% em 2010 – número próximo aos 44% encontrados pela Transparência Brasil no mesmo ano. Logo após a última disputa eleitoral, a ONG divulgou outro levantamento que concluiu que 49% dos deputados federais eleitos em 2014 tinham pais, avôs, mães, primos, irmãos ou cônjuges com atuação política – o maior índice das quatro últimas eleições.

O problema não seria tão grande, contudo, se não fossem várias dessas mesmas famílias parte também, ao mesmo tempo, da elite econômica que têm uma participação desproporcionalmente grande no controle dos meios de produção (indústrias, fazendas, empreiteiras, etc.) e de empresas jornalísticas em seus currais eleitorais (comandadas direta ou indiretamente, por terceiros clientelistas, grupo do coronel), o que gera uma situação na qual elas podem facilmente sufocar toda e qualquer concorrência ou divergência tão grandes que possam parecer uma eventual ameaça ao seu poderio inconteste.

Essa é a essência do coronelismo: o líder não ser só um político forte, mas também um empresário e proprietário poderoso, bem como uma figura com influência extrema nos meandros do Judiciário e da imprensa, muitas vezes através de parentes ou amigos. E Alguém acha mesmo que isso não existe hoje em dia tanto no Nordeste quanto no Sudeste, no Sul, no Centro-Oeste e no Norte do Brasil, sobretudo nas cidades pequenas? Mesmo hoje, em 2018, o coronelismo ainda manda e desmanda na política. Se adaptou. E ainda mantém a política brasileira refém de seus interesses.

Notas de rodapé

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