Ainda despercebida pelo público em geral, uma praga bíblica infesta o país.

Por Hamilton Carvalho – Poder360 – Editado p/Cimberley Cáspio

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Escorpiões são encontrados em casas de Campinas (Foto: Reprodução / EPTV)

Recentemente, tomei conhecimento de uma infestação de escorpiões no bairro em que moro, na zona sul da cidade de São Paulo. Ao pesquisar as notícias mais recentes, verifiquei, primeiro, que o problema tem acontecido na cidade toda.

Segundo, vi que o problema está longe de ser localizado na capital paulista. Pelo contrário. De fato, o Brasil parece estar tomado por escorpiões. Em 2010, cerca de 50.000 pessoas foram picadas, número que aumentou para 140 mil no ano passado. As buscas pelo termo “escorpião” (excluído o horóscopo) no Google quadruplicaram em relação a 5 anos atrás, sugerindo um forte aumento de preocupação da população.

Estados que não tinham relatos significativos antes do ano 2000, como o Rio Grande do Sul, hoje estão tendo de lidar com o agravamento do problema. As infestações têm levado pânico às cidades brasileiras, que fornecem um excelente habitat ao animal, como abrigo em redes de esgoto, disponibilidade de água e alimentos (principalmente baratas), além da ausência de predadores.

Ainda que apenas uma fração bastante pequena das picadas leve à morte, as maiores vítimas fatais costumam ser crianças de pouca idade, que requerem atendimento médico ultrarrápido.

A espécie que mais tem se expandido pelo Sudeste, Sul e outras regiões é o chamado escorpião-amarelo, que tem o veneno mais letal. Essa espécie tende a se replicar pelo processo conhecido como partenogênese, em que a fêmea, sem participação do macho, gera de 20 a 30 cópias de si mesma cerca de duas vezes por ano.

Considerando que o animal vive alguns anos, é fácil perceber que sua população tende a explodir rapidamente com o passar do tempo. Uma conta simples mostra que, sem qualquer limite, uma única fêmea poderia gerar trilhões ou quadrilhões de descendentes em alguns anos.

Porém, em sistemas naturais ou sociais nada cresce exponencialmente para sempre sem que algum tipo de barreira seja atingido. Uma simulação simples (abaixo), sem maiores pretensões, mostra que, adotada a hipótese de um freio (por exemplo: alimento), uma única fêmea poderia originar, em 10 anos, uma população de 17.000 escorpiões.

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Não tenho parâmetros para dizer se isso é muito ou pouco. Lembro ao leitor, todavia, que somente em Americana (SP), cidade com pouco mais de 200 mil habitantes, equipes que realizam buscas noturnas capturaram mais de 13.000 escorpiões (!) no ano de 2018.

Como praticamente todo problema complexo, a piora acontece em um longo horizonte temporal. Infelizmente, o problema veio para ficar e deve se acentuar nos próximos anos. Tudo indica que será mais um na lista de problemas crônicos com que a sociedade brasileira tem e terá de conviver diariamente, como violência, dengue e trânsito.

A infestação de escorpiões é um bom exemplo do que se chama na literatura acadêmica de wicked problem (problema perverso, em uma tradução direta). São problemas que envolvem diversos atores sociais, com posições nem sempre alinhadas. Não têm solução simples ou definitiva e seu enfrentamento requer a aceitação da ignorância e a busca por um contínuo aprendizado.

http://www.poder360.com.br/opiniao/brasi…-carvalho/

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