“A elite brasileira é obscena, analfabeta, não evolui e é arrogante.”

Por Demóstenes Torres – Poder360

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José Luiz Setúbal, em entrevista concedida à revista VEJA, detalhou sua labuta para engajar pessoas de alto poder aquisitivo a fim de transformar o Brasil, via filantropia.

Diz ele que os brasileiros doam pouco e que os pobres o fazem mais. Há alguns anos, ele e o empresário Elie Horn fizeram uma série de reuniões com pessoas de alto poder aquisitivo para que assinassem um manifesto à semelhança do The Giving Pledge, fundado por Bill Gates e Warren Buffett, como forma de incentivá-las a doar 20% de suas fortunas.

Resultado: não encontrou viva alma. Desculpas: já fazem doações, temem o sequestro de parentes, medo de que a destinatária seja inidônea, com a gigantesca corrupção do país, e vergonha de doar e parecer um novo rico ou coisa de artista.

Relata um caso curioso, ocorrido em 2013. O Masp estava para quebrar e foram levantados R$ 20 milhões com doações que iam de R$ 200 mil a 500 mil. Hoje o museu é saudável, fazendo novas exposições e ampliando seu acervo de obras de arte. Na lista de doadores do museu não aparece ninguém, enquanto na da recuperação da Notre Dame estão todos lá.

Quando lhe perguntam se é possível abatê-la no Imposto de Renda, responde que, se fosse, não seria doação e que filantropia significa amor ao ser humano, muito além do assistencialismo, que também defende porque há necessidades imediatas, as quais precisam ser acudidas, como a fome.

Advoga por um imposto sobre herança parecido com o dos Estados Unidos (40%), para que em vida as pessoas se movimentem e criem, por exemplo, uma fundação e evitem que seus descendentes paguem a alíquota. Em São Paulo, são ridículos 4%.

E o exemplo pessoal? Já foi professor voluntário de curso de alfabetização de adultos, doou mais de 20% de sua fortuna pessoal, avaliada em R$ 1 bilhão, contribui com museus, igrejas, bolsas de estudo para alunos de medicina e pesquisas, atualmente nas universidades de Harvard, Maryland e Tulane, sobre crianças institucionalizadas, isto é, que vivem em abrigos.

Para cuidar da infância, é pediatra, adquiriu o hospital Sabará, em São Paulo, tendo criado um fundo no qual aportou R$ 150 milhões. Acredita, cientificamente, que as maiores ações em favor das crianças devem ocorrer até que elas completem 6 anos de idade, pois é aí que o cérebro cresce em massa e se pode interferir para melhorar a vida do ser humano.

Senti-me sensibilizado porque sou extremamente otimista, quase uma Poliana, e tive ideia semelhante, em proporções bem mais modestas, assim que me aposentei do Ministério Público. Pensei: o mundo foi extremamente generoso conosco. Muitos que eram pobres se transformaram em milionários. Filhos de pessoas humílimas hoje são profissionais respeitáveis. Proprietários de grandes áreas no cerrado viram suas terras, com os experimentos científicos da Embrapa, valorizadíssimas.

Concebi um hospital de ponta para atendimento a carentes, uma escola para formação de jovens e crianças com estrutura de primeiro mundo ou apadrinhamento de instituições já prontas, atendimentos a cidadãos em risco ou pessoas vulneráveis. Um CEO inquestionável tomaria conta da pessoa jurídica a ser criada e a administraria sob auditoria constante.

Pessoas contribuiriam com dinheiro, tempo, aulas, supervisão, cirurgias, atendimentos médicos, com qualquer coisa que pudessem ajudar.

Qual o quê! Ninguém queria dar o seu. Como na história do dr. Setúbal, os doadores escorregaram. As desculpas eram as mais estapafúrdias, algumas até cruéis quando consideravam as pessoas que seriam acudidas.

Como detesto mídia social, só tinha informações sobre o patrimônio. Resolvi conhecer o estilo de vida de quem procurei e recusou a benemerência. Todos frequentavam Nova York, por exemplo, e expunham a visita com centenas de fotografias. Mas nenhuma em ópera, balé, museu, shows de jazz, blues, livrarias. Nada referente a conhecimento. E muitas festas regadas a funk, axé e sertanejo universitário (uma turma que nunca se gradua). Pura ostentação.

Concluo que, para desalento geral, nossa elite é culturalmente obscena, não está preparada para o desafio da globalização, não estuda, é analfabeta, não patrocina pesquisas e não tem qualquer preocupação socioeconômica com os pobres e desvalidos. É caipira porque tendo condições de sobra, não evolui, não enobrece o coração e é arrogante.

Como disse Jorge Caldeira, é preciso ter atenção para a realidade que nos cerca “para melhor compreensão dos interessados sobre a quantas anda nossa vida material nesse mundo, que para alguns é o jardim do Éden e para muitos é realmente o vale de lágrimas”.

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