Emprego: hoje, um artigo de luxo que um dia foi a salvação da classe trabalhadora,virou algo precário em todo mundo, não é mais um seguro contra a pobreza.

Por Marcelo Tognozzi – Poder360

Em 1 ano, aumentou o número de pedintes, camelôs e sem-teto

Há uma parte da Europa igual à periferia de São Paulo, Rio, Buenos Aires, Lima, Cidade do México ou Bogotá. A Europa pobre. Em 1 ano aumentou bastante o número de pessoas vivendo nas ruas, pedintes, camelôs e sem-teto. Pessoas que passam a noite em bancos de praça ou marquises de ruas movimentadas. Estão em Madri, Paris, Genebra, Lisboa, Berlim, Istambul, Roma, toda parte. São imigrantes? Ao contrário, fazem parte dos 112 milhões de pobres europeus, pouco mais de 20% da população dos 28 países membros da União Europeia. Eles nos mostram que nada mais será como antes da crise de 2008.

A Estratégia Europa 2020, um plano aprovado em 2010 e cuja meta era tirar da pobreza 20 milhões de pessoas, fracassou. Os técnicos e os políticos apostaram que o crescimento econômico e a geração de empregos fariam com que a pobreza diminuísse. Mas emprego virou algo precário em todo mundo, não é mais um seguro contra a pobreza. Há poucos dias, dezenas de pobres e sem-teto montaram um acampamento em frente ao Museu do Prado, o principal de Madri, por onde passam anualmente cerca de 3 milhões de pessoas vindas de todas as partes do planeta. Estão ali, em exposição permanente, mostrando a agonia do estado de bem-estar social.

Os acampados são pessoas que não conseguem emprego, este artigo de luxo que um dia foi a salvação da classe trabalhadora. E também não têm acesso aos serviços básicos simplesmente porque na Espanha quem não tem um endereço fixo e não é “empadronado”, como se diz por aqui, tem dificuldade até para ser atendido num posto de saúde. Os técnicos da União Europeia não costumam falar de pobres, mas de “risco de pobreza” nos seus relatórios. Uma fineza para com os desvalidos por parte de quem não entende que, seja em São Paulo, Paris, Nova Iorque ou Istambul, todo mundo é parecido quando sente dor.

Stephane Hessel (1917-2013) publicou em 21 de outubro de 2010 seu ensaio Indignai-vos, de apenas 32 páginas. Tinha 93 anos e exibia a mesma energia de quando era um moleque de 20 recrutado pela resistência francesa na 2ª Guerra como maquis. Argumenta que a Europa que emergiu da guerra era mais solidária e comprometida com as questões sociais, a garantia ao trabalho e uma aposentadoria digna. A indignação de Hessel pode ser resumida em uma frase: “O homem justo crê que a riqueza gerada pelo trabalho deve prevalecer sobre o poder do dinheiro”.

Esta mentalidade foi se perdendo ao longo dos últimos 74 anos e a pobreza da Europa crescendo na mesma proporção do acúmulo exagerado de riqueza pelo setor financeiro, o que o ex-maquis chama de “ditadura internacional dos mercados financeiros, que ameaçam a paz e a democracia”. Hessel não estava delirando quando escreveu ter o setor financeiro engordado tanto, que tirou das mãos do homem comum o dinheiro que deveria estar circulando e gerando menos pobreza. Por este raciocínio, o correto seria que os bancos devolvessem à sociedade parte desta riqueza acumulada sob a forma de impostos que financiassem ações contra a pobreza. Eles seriam capazes disso? Por quê?

Em fevereiro deste ano, Bradesco, Itaú e Santander pagaram R$ 32,8 bilhões em dividendos e juros aos seus acionistas. Nada menos que um aumento de 43% sobre o lucro de 2018. Praticamente o mesmo valor do orçamento da Bolsa Família para 2019. Isso, num país com 14 milhões de desempregados, 40 milhões de miseráveis, crianças que vivem nas ruas, escolas e hospitais que não funcionam. Bancos geram cada vez mais lucro e cada vez menos empregos. São ao mesmo tempo uma fonte de riqueza e de pobreza. Seja em São Paulo ou Madri, miséria é miséria em qualquer parte, riquezas são diferentes.

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