Taxistas de Duas Barras: as putas desvalorizadas e que ninguém quer saber.

Por Cimberley Cáspio

Foto: Nazareno de Jesus

A verdade é que saímos de casa e não temos destino. E somente o sol, a lua, e as montanhas de nossa região como testemunhas de nossas viagens, e muitas das vezes, aventura pra valer.

Somos putas invisíveis que ninguém quer saber. E quer saber? Não damos importância a isso. Amamos a estrada e a liberdade que nos dá o nosso trabalho.

A gente ama o que faz. E aqui no interior, enfrentamos o clima, a lama na roça que nos tenta prender, estradas abandonadas e traiçoeiras, madrugadas em caminhos solitários para atender, ou, já conduzindo o cliente ao seu destino.

Alguns dizem que somos à prova de fogo, mas não somos. Somos viciados no que fazemos, mas também temos medo das surpresas. Mas como somos as putas do volante, temos prazer em fazer o que fazemos, só que muito menos valorizados do que as “funcionárias” da zona. E por outro lado, não buscamos valorização, pelo contrário, buscamos destinos, sejam perto, sejam longe, mesmo sabendo que não ficaremos ricos por esse trabalho, é um vício, fazer o quê?

Somos taxistas de Duas Barras com muito prazer, obrigado. As putas rampeiras de uma cidade, que de certa forma, precisa de nós. E se alguém ainda não precisou, fatalmente um dia vai precisar, seja para atender no carro que enguiçou em alguma estrada fora de hora, ou, levar à noite em segurança para casa em algum lugar da roça, seja dia, noite, calor, ou debaixo de chuva.

E quando o nosso carro quebra na estrada solitária pela madrugada? Ninguém pode nos ajudar. O celular não pega e a solução é dormir no veículo e esperar o dia amanhecer para receber auxílio. Um banho? Um café? Só depois que chegar ao destino. E se sentir vontade de ir ao banheiro, é torcer para que nenhum bicho nos pegue enquanto estamos fazendo ali, a nossa necessidade.

Até a polícia tem pena de nos parar para fiscalizar, e quando nos veem, buzinam e dão um tchauzinho, sabendo eles que em muitas vezes estamos a caminho de lugares sombrios, como em um filme de terror; e a cada retorno, é um milagre que acontece.

Outros dizem que somos anjos, pode ser, quem sabe devido subirmos e descermos serras enlameadas durante noites chuvosas e chegarmos ilesos, sem cair em nenhum abismo.

Alguém lá em cima com certeza gosta de nós.

Não! Nada disso é ficção. É a realidade do taxista da roça.

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