O clube do Bolinha é que determina aumento na conta de luz. Somente questão de privilégio de alguns ricos.

Por Rutelly Marques da Silva e Leandro Caixeta – Poder360 – Editado por Cimberley Cáspio

blog do gabriel luiz: CLUBE DO BOLINHA

Os aumentos na conta de luz nunca tiveram justificativas reais, e continuará não tendo. Tudo não passa de uma determinação de um grupo privilegiado. Uma espécie de clube do Bolinha, que tem como objetivo a manutenção do poder e multiplicação de riquezas pessoais através da exploração permanente do consumidor cativo da energia brasileira.

É um clube de ricos arrogantes com poder e influência na ANEEL, os quais, dependendo deles, o sistema continuará assim, explorando o consumidor cativo e sem nenhuma esperança ou oportunidade para que a distribuição de energia seja igual para todos.

O clube do Bolinha não tem interesse em modernizar a distribuição de energia e sim mantê-la no atraso, proporcionando ao consumidor cativo, um tratamento comparado a carregadores de piano, enquanto eles pagam a meia entrada para assistirem o concerto.

As notícias mostram que o consumo de energia elétrica despencou 15% no Brasil em decorrência da queda da atividade econômica provocada pela pandemia. Um consumidor desavisado poderia concluir que, com o divulgado excesso de oferta, os reservatórios das hidrelétricas se recuperando e o preço de curto prazo em seu piso, o preço da energia elétrica cairia. Um alívio diante da queda em sua renda nessa crise. Entretanto, as notícias também mostram que, na verdade, a redução do consumo aumentará as tarifas e que pagaremos um enorme empréstimo para salvar o setor elétrico. Indignado, o consumidor decide assistir a uma live com especialistas do setor elétrico para desvendar o mistério de por que pagará mais pela energia elétrica quando há excesso de oferta.

Na live, o moderador explica que os leilões de expansão, baseados em contratos de até 30 anos entre geradores e distribuidoras e considerados case de sucesso, dão segurança aos investidores e são eficientes para viabilizar novas usinas; afirma, ainda, que, mesmo com o direito de repassar para as tarifas dos consumidores cativos os montantes e os preços contratados nos leilões, as distribuidoras têm dificuldades de honrar seus compromissos em decorrência da queda brusca no consumo de energia elétrica provocada pela crise. O consumidor, então, se pergunta se realmente está diante de um case de sucesso.

O moderador passa a bola para o primeiro debatedor, que sugere elevação imediata das tarifas para preservar o caixa das distribuidoras e garantir o fluxo de pagamentos do setor. O segundo debatedor defende buscar recursos com o mercado financeiro para transferir a elevação tarifária para o futuro, numa operação em que os consumidores seriam, ao mesmo tempo, tomadores, pagadores e garantidores do empréstimo. O terceiro debatedor alerta que, no cenário de elevação tarifária, alguns consumidores optarão por abandonar as distribuidoras em direção à geração própria ou ao mercado livre, inclusive por causa dos subsídios que estimulam esses movimentos.

O consumidor percebe que a situação é pior do que ele imaginava ao escutar o moderador ponderar que nem todos os consumidores podem deixar as distribuidoras e que essa fuga aumentaria a conta de quem ficasse pra trás. Irritado por saber que paga muito mais do que deveria, tem um sopro de esperança ao escutar o quarto debatedor defender que contratos mais curtos permitiriam às distribuidoras a recontratação da energia com maior frequência,  evitando-se a sobrecontratação. Além disso, os preços refletiriam o valor da energia. Com sobreoferta, a recontratação seria barata. Com esse aprimoramento e a eliminação de algumas distorções, como os subsídios, a migração de consumidores para o mercado livre deixaria de ser problema, já que a decisão de um consumidor seria neutra para os demais. Maravilha!

A esperança dura pouco. O primeiro debatedor diz que as migrações afetam o pilar fundamental da segurança da expansão e que o fim dos subsídios desestruturaria uma importante cadeia produtiva, geradora de emprego e renda, e defende que uma parte dos consumidores seja obrigada a continuar cativa.

Desesperado com o que parece uma condenação definitiva, e se perguntando onde está o debatedor que defende os que acabam pagando a conta, o consumidor escuta o moderador questionar se é justo e sustentável escolher alguns consumidores para custear a confiabilidade do setor elétrico. Alega que a crise atual ilustra a onerosidade do arranjo em que muitos, inclusive os cidadãos de menor poder aquisitivo, carregam o piano, enquanto poucos pagam meia-entrada para assistir a um pianista tocá-lo em um teatro luxuoso. A chama da esperança do consumidor é reacendida ao escutar que o próximo debatedor é um especialista em tecnologia.

O quinto debatedor fala sobre a maior transformação do setor elétrico desde sua criação: geração distribuída, medidores inteligentes, baterias, veículos elétricos, redes inteligentes, inteligência artificial na casa das pessoas. O consumidor percebe que isso tudo, apesar dos muitos benefícios, pode gerar um grande problema quando escuta o moderador afirmar que, com tanta novidade, os consumidores exigirão liberdade para usufruir as novas possibilidades e, nesse contexto, não haveria mais a legião de consumidores cativos para garantir a confiabilidade do setor elétrico.

Enquanto os debatedores fazem os comentários finais, e motivado por uma fala do moderador de que é possível garantir liberdade e alocar os custos da confiabilidade entre todos os consumidores de forma isonômica, a exemplo do que vários outros países desenvolvidos fazem, o consumidor resolve fazer duas perguntas no chat: por que o nosso setor elétrico não avança para ajustar suas distorções? Por que não o aperfeiçoamos para impedir o aumento nas tarifas de energia elétrica nesse momento de crise?

Feliz com as perguntas, o moderador responde que, primeiro, temos que resolver os problemas de curtíssimo prazo, o que vai resultar em elevação tarifária. Contudo, temos que fazer isso de forma alinhada a um projeto de modernização do setor elétrico com as seguintes linhas mestras: liberdade para os consumidores comprarem energia elétrica do agente que melhor atende as suas necessidades (preço e requisitos ambientais, por exemplo); distribuidoras focadas exclusivamente em distribuir energia elétrica; segurança do abastecimento como uma responsabilidade de todos; energia elétrica comercializada em condições de mercado; sinais de preços eficientes; e, como medida de justiça distributiva, redução drástica dos subsídios cruzados.

Pesquisando, o consumidor descobre que tramita no Congresso Nacional um projeto de modernização maduro e estruturado, com condições de ser aprovado tão logo consigamos superar o momento turbulento atual. Inteligente, percebe que o modelo atual, ainda que atrasado, gera privilégios para alguns, que resistirão às mudanças. Entretanto, esperançoso, pondera que os impactos no setor elétrico causados pela pandemia podem perpetuar em nossa memória a contradição entre excesso de oferta e preços altos e ser catalisadores para os necessários aperfeiçoamentos. Caso contrário, restará-nos aguardar a próxima crise, em que lamentaremos novas elevações tarifárias assistindo a mais lives de especialistas, e com a geladeira vazia.

https://www.poder360.com.br/opiniao/brasil/ha-algo-errado-para-o-consumidor-de-energia-discutem-marques-da-silva-e-moreira/

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