Em 2012, a bandeira brasileira já era vítima de atos de terrorismo e traição em seu próprio território.

 Lucas Bólico e Renê Dióz – reportagem publicada em 2012

A reivindicação foi justa, mas o ato de queimar a bandeira brasileira foi crime.

Foto: José Medeiros / Olhar Direto

Por anos a entrada do distrito de Estrela do Araguaia foi reconhecida por uma pequena estátua de Cristo Redentor e uma bandeira brasileira. Depois do ato de aberração, passou a contar apenas com o Cristo. Cerca de 200 moradores e produtores rurais, acompanhados de líderes sindicais, de associações e políticos incendiaram o símbolo maior da pátria em revolta contra o processo de desintrusão que vinha retirando todos os não-índios de Suiá Missú, demarcada como terra xavante em 1998.

O ato, planejado exclusivamente para dar repercussão nacional à situação da gleba, teve apoio da Assembleia Legislativa (AL) de Mato Grosso, segundo anunciou à época o deputado estadual Baiano Filho (PMDB) logo após o protesto – o qual contou com a presença de sindicalistas rurais e produtores de outros pontos da região, sobretudo da cidade de Querência.

Foto: José Medeiros / Olhar Direto

O peemedebista defendeu a queima do lábaro nacional como um ato democrático do setor produtivo que estava insatisfeito com o desfecho da disputa jurídica pelas terras. “[O ato tem] apoio nosso da Assembleia [Legislativa], todo parlamento estadual até porque nós da Assembleia entendemos que o que está acontecendo aqui é uma injustiça muito grande”, argumentou.

Quem, do microfone, chamou a população para o protesto antipatriótico foi o então prefeito de São Félix do Araguaia, Filemon Limoeiro (PSD), que detinha área em Suiá Missú e retirou todo o seu gado devido à desintrusão. “Eu convido a todos que vamos lá, abaixar a bandeira brasileira, que é uma vergonha para todos nós, e fazer o ato. Aqueles que concordam, queiram nos acompanhar”, conclamou o peessedista.

A Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato) e a Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat) só não tiveram representantes no ato porque foram intimados pelo Ministério Público Federal (MPF), segundo o qual poderiam ser presos por incentivar impedimento a cumprimento de decisão judicial.

Foto: José Medeiros / Olhar Direto

Lábaro em chamas

Iniciada a manifestação, crianças em fila se dirigiram à base do mastro para puxar a flâmula para baixo, ajudadas por alguns adultos. Após a queda da bandeira, líderes do movimento jogaram álcool e gasolina no tecido e atearam fogo com isqueiros. Enquanto os trapos se desprendiam, a multidão emitia alguns gritos e aplausos.

“Não somos terroristas, somos ruralistas”, gritaram alguns. “Vamos botar uma bandeira dos Estados Unidos no lugar, lá ninguém tá nem aí pra índio não!”, exclamou outro.

Na época, observados por aproximadamente trinta caminhoneiros retidos no bloqueio mantido na rodovia BR-158, os manifestantes passaram a rasgar os restos chamuscados da bandeira brasileira enquanto algumas crianças corriam, ávidas para mostrar cartazes de protesto às câmeras da imprensa. O ato só se encerrou com a chegada de um ônibus abastecido com alimentos, em apoio aos moradores de Estrela do Araguaia (Posto da Mata). Algumas crianças levavam pedaços de tecido verde, amarelo e azul para casa de bicicleta.

O ato só não saiu como o planejado, porque os manifestantes exaltados acabaram inutilizando a corda do mastro. No lugar do símbolo nacional, os produtores, moradores e políticos, pretendiam erguer um pedaço preto de lona, em sinal de luto.

Foto: José Medeiros / Olhar Direto

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