Esgotados, abandonados, sem valorização, e aumento de mortes entre colegas, profissionais da saúde desistem da profissão diante da pandemia.

Por Domtotal.com – editado p/Cimberley Cáspio

Médicos conversam sobre paciente com Covid-19 em Muret, França, em 16 de novembro
Médicos conversam sobre paciente com Covid-19 em Muret, França, em 16 de novembro (Lionel Bonaventure/AFP)

Uma agora é confeiteira, e outro se prepara para ser livreiro, mas ambos têm em comum o fato de terem deixado para trás sua experiência de trabalho em hospitais, em condições insuportáveis em consequência da pandemia do coronavírus.

A francesa Nolwenn Le Bonzec chegou a Bruxelas, procedente de sua Bretanha natal, em busca de trabalho. Deixou para trás sua experiência médica para assar bolos e está convencida de que essa mudança “salvou minha saúde mental”. “Trabalhei cinco anos em hospitais e, aos poucos, vi como as condições de trabalho se deterioraram, e a saúde se tornou uma commodity”, diz essa jovem de 27 anos, que hoje é responsável pelos cupcakes da loja Lilicup.

Enquanto isso, Thomas Laurent decidiu realizar “um sonho antigo”, após 15 anos trabalhando em hospitais. Apaixonado por quadrinhos desde a infância, ele iniciará em janeiro a formação de livreiro, obrigatória na França. O enfermeiro francês de 35 anos pediu demissão, recentemente, do serviço de urgência de um famoso hospital de Lyon por considerar que as condições para o exercício da sua profissão “já eram insustentáveis”.

A permanente falta de pessoal e de recursos, assim como a falta de tempo para cuidar bem dos pacientes, acabaram consumindo seu entusiasmo.

Entusiasmo diluído

“Passamos anos pedindo melhores condições de trabalho. Mas o governo (belga) não nos leva a sério. Se continuasse, cairia na depressão. Fizemos manifestações, nos mobilizamos, mas nada mudou”, lamentou Le Bonzec, que trabalhava em uma famosa clínica da capital belga.

A jovem já questionava sua situação, quando chegou a primeira onda da pandemia do coronavírus, na primavera boreal (outono no Brasil).

“Psicologicamente, era difícil trabalhar em unidades de isolamento, tendo que lutar por máscaras. Corríamos riscos para a nossa saúde e de nossos entes queridos. E víamos pacientes que não tinham direito de visita, que estavam sozinhos, que morriam sozinhos”, lembrou.

A falta de pessoal tem necessariamente pesado no atendimento aos pacientes, ponto focal da profissão. Aos poucos, chegar ao hospital foi se tornando cada vez mais difícil, até que não tiveram mais forças para suportar a pressão, a frustração e, sobretudo, a “perda de sentido” do trabalho.

Desde que saiu do hospital, Laurent tem dormido melhor, e a pressão “desapareceu”. Da mesma forma, Nolwenn aponta que “seis meses depois, ainda não sinto falta do meu trabalho como enfermeira. Estou feliz por vir trabalhar e contar como foi meu dia quando cheguei em casa”, embora a mudança signifique acordar todos os dias às 4h para ir à confeitaria.

Menos aplausos, mais compromisso

O desconforto no trabalho atinge principalmente os mais jovens, “porque eles entram na profissão com seus ideais, mas recebem um banho frio diante da realidade e nem sempre têm o apoio e a supervisão que deveriam”, diz Astrid Van Male, uma enfermeira belga que se especializou no “burnout” de seus colegas.

Eles “nem sempre têm o reflexo de cuidar de si mesmos, porque estão acostumados a cuidar dos outros. Esperam que todo seu mundo desmorone” para tomar consciência do que está acontecendo com eles, aponta. Alguns até se sentem culpados por tirar uma folga e aumentar a carga de trabalho de seus colegas. “Se não fizermos nada, logo não haverá mais enfermeiras nos hospitais. Até enfermeiras estrangeiras não aceitam mais essas condições de trabalho”, alerta.

Com a segunda onda da pandemia, os aplausos da tarde nas varandas e janelas diminuíram. “Para quem aplaude, mas não se manifesta conosco, é fácil. Coloquem suas energias em outro lugar para nos ajudar!”, diz Le Bonzec sem remorso, que ainda se refere no presente à vida que já deixou para trás.

Bem, e no Brasil? “No Brasil está dez vezes pior, insustentável, surreal. Também deixei minha carreira da enfermagem após 17 anos. Estou leve, durmo e acordo bem, sem hipertensão ou qualquer outro sintoma que afetava o meu corpo constantemente.” Disse, Rosane Rosa.

“Me formei em 1997, na UFSM. Sempre tive ORGULHO de minha Profissão. Aprendi a ter um olhar holístico, humanizado, a ouvir atentamente, a prestar o cuidado em todos os ciclos de vida, respeitando a individualidade de cada ser humano, seus valores e crenças. Aprendi a não julgar, a conviver com as diferenças, a levar o conforto quer pelo cuidado na assistência, quer por uma palavra de apoio. Muitas vezes fui companhia em meio ao silêncio… Segurei muitas mãos… até que elas se soltaram das minhas para seguir por caminhos de LUZ. Fui preparada para isso!!! Escolhi ser ENFERMEIRA por AMOR! Saímos da Universidade imbuídos de ideais, com muita vontade de contribuir com a saúde de nosso país! Então, nos deparamos com uma triste realidade: jornadas de trabalho exaustivas, porque precisamos ter 2 ou até 3 empregos para sobreviver! Baixos salários, condições insalubres de trabalho, falta de equipamentos de proteção, equipes reduzidas, sobrecarga de trabalho, de cobranças, de stress físico e emocional. Alguns de nós ainda enfrentam “Assédio Moral”, ameaças, constrangimentos. A Universidade não nos prepara para isso! Nossa saúde mental não aguenta e o corpo padece! E a Lei? No que nos ampara? Então…muitos DESISTEM SIM! Por não ter forças para lutar contra um sistema corrupto e falido!!! E quando lutamos por um piso salarial, por uma jornada de trabalho de 30 horas, a maioria dos senhores Senadores (donos de grandes Hospitais, Clínicas, Laboratórios, etc) VETA o Projeto de Lei! Porque para eles…é PREJUÍZO!” Concluiu Silvana Lampert Jarrar

E a realidade é essa: aqui também, um número muito maior de profissionais de saúde estão desistindo do lindo trabalho de salvar vidas, não por eles, claro, mas sim, devido o abandono, a falta de valorização, falta de equipamentos adequados, exposição diária da vida ao risco de contaminação, e o número grande de morte entre colegas; morte essa que desaparece na fumaça e os familiares não tem nenhuma compensação, ou direito especial.

https://domtotal.com/noticia/1483955/2020/11/esgotados-profissionais-de-saude-desistem-da-profissao-diante-da-pandemia/

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