Por não querer assumir gravíssimo erro de comando, cúpula militar americana covarde, jogou subordinados inocentes e patriotas aos leões.

Por Carlos Daroz

O cruzador USS Indianapolis (CA-35) meses antes de ser afundado no Oceano Pacífico

Na fria manhã de 6 de novembro de 1968, o barulho de um tiro ecoou na pequena cidade de Litchfield, Connecticut.  Estendido no gramado do jardim de sua casa estava o corpo sem vida do contra-almirante Charles McVay III, veterano da 2ª Guerra Mundial, de 70 anos de idade, e comandante do cruzador pesado USS Indianapolis, por ocasião de seu afundamento em 1944.  Em uma mão estava um revólver e, na outra, um pequeno marinheiro de brinquedo, que havia ganhado de presente de seu pai, muitos anos antes.  O almirante tirara sua própria vida.

Uma vida na Marinha

Charles Butler McVay III nasceu em Ephrata, Pennsylvania, no dia 30 de julho de 1898, em uma família de forte tradição naval.  Seu pai, Charles Butler McVay Jr. era o comandante do tênder  USS Yankton durante o cruzeiro de circunavegação da Grande Esquadra Branca (1907-1909), serviu como almirante durante a 1ª Guerra Mundial e foi comandante-em-chefe da Esquadra Asiática, no início da década de 1930.  Charles III graduou-se na Academia Naval de Anápolis em 1920.  Antes de assumir o comando do USS Indianapolis (CA-35), em novembro de 1944, o Capitão McVay serviu como oficial de inteligência na Junta dos Chefes de Estado-Maior, em Washington.  No princípio da 2ª Guerra Mundial, foi agraciado com a medalha Silver Star, por sua coragem sob fogo.

Já no comando do cruzador USS Indianapolis, liderou seu navio na invasão de Iwo Jima e no bombardeio naval contra Okinawa, na primavera de 1945, durante a qual o Indianapolis abateu sete aviões japoneses, antes de ser atingido por um ataque kamikaze, em 31 de março.  Na oportunidade, a tripulação sofreu severas baixas, inclusive 13 mortos, e o navio foi avariado com gravidade.  Apesar disso, McVay conseguiu levar o navio em segurança até o estaleiro de Mare Island, na Califórnia, para ser reparado.

Capitão Charles Butler McVay III, o desafortunado comandante do USS Indianapolis

Mais tarde, já recuperado, o USS Indianapolis recebeu ordens para transportar para o arquipélago de Tinian partes das bombas atômicas que, mais tarde, seriam lançadas contra Hiroshima e Nagasaki.  Depois de entregar sua carga secreta no destino, o navio partiu na direção de Leyte, nas Filipinas, onde receberia nova missão.

Nas primeiras horas da manhã de 30 de julho de 1945, o Indianapolis foi atacado pelo submarino japonês I-58, comandado pelo tenente-comandante Mochitsura Hashimoto. O comandante Hashimoto disparou seis torpedos, dois dos quais atingiram o cruzador.  O primeiro impacto arrancou cerca de 40 pés da quilha do navio e o segundo atingiu a meia-nau, abaixo da linha d´água.  O Indianapolis adernou 15° imediatamente e afundou em 12 minutos.  De uma tripulação de 1.196 homens, 879 morreram, sendo este o pior desastre no mar da Marinha dos EUA durante a 2ª Guerra Mundial.

Resgate tardio

Cerca de 300 dos 1.196 homens perderam a vida no momento do ataque e quando o navio afundou.  O restante da tripulação, mais de 880 homens, permaneceu boiando no mar, sem botes salva-vidas, até que o resgate fosse completado quatro dias mais tarde (100 horas).

Devido ao protocolo da Marinha para salvaguardas as missões secretas, o navio não foi classificado como “atrasado” quando não chegou ao porto na data prevista, e o resgate somente teve início quando um voo de patrulha de rotina localizou os sobreviventes flutuando na imensidão do oceano.

Tornou-se parte do folclore afirmar que a maioria das mortes nesses quatro dias foram provocadas por ataques de tubarões, mas, embora estes tenham ocorrido, as maiores causas de mortes foram os ferimentos recebidos no ataque, a desidratação, a exaustão e a ingestão de água salgada. 

Local onde o USS Indianapolis foi afundado

Quando foi atingido, o Indianapolis navegava a uma velocidade de 15 nós, o mar estava calmo, mas a visibilidade era limitada. Quando o cruzador não chegou a Leyte no dia 31, conforme estava previsto, nenhum alerta foi emitido em função do atraso. A omissão foi oficialmente classificada como “um mal-entendido do Sistema de Relatórios de Movimento”.

Controvérsias

McVay foi ferido, mas sobreviveu e estava entre os resgatados. Ele pediu repetidamente explicações à Marinha por ter demorado quase cinco dias para resgatar seus homens, mas nunca recebeu uma resposta. Mais tarde, a Marinha alegou que as mensagens SOS nunca foram recebidas porque o navio estava operando sob silêncio de rádio. Registros desclassificados posteriormente, no entanto, mostraram que três mensagens SOS foram recebidas separadamente sim, mas nenhuma foi considerada, pois os analistas acreditaram se tratar de um ardil japonês. Será?!

Sobreviventes do USS Indianapolis recolhidos por um destróier norte-americano: com a demora no resgate, mais de 500 homens que haviam sobrevivido ao ataque perderam suas vidas

Houve muita controvérsia sobre o incidente. Em novembro de 1945, McVay foi submetido à corte marcial e condenado por “arriscando seu navio ao não navegar em ziguezague.” Hashimoto, o comandante do submarino japonês que tinha afundado o Indianapolis, em seus registros, descreveu a visibilidade na ocasião como baixa. Especialistas em submarinos americanos testemunharam que “ziguezague” era uma técnica de valor insignificante para iludir submarinos inimigos. Hashimoto também testemunhou confirmando essa impressão. Apesar desse testemunho, a decisão oficial foi de que a visibilidade era boa, e o tribunal considerou McVay responsável por falhar ao não navegar em ziguezague.

Um ponto adicional da controvérsia são as evidências de que os almirantes da Marinha dos Estados Unidos foram os principais responsáveis pela colocação do navio em perigo. Por exemplo, o Capitão McVay solicitou uma escolta para o Indianapolis, mas seu pedido foi negado porque a prioridade para os destróieres, na época, era escoltar transportes para Okinawa e resgatar pilotos de B-29 abatidos por ocasião de seus reides contra o Japão. Além disso, o comando naval assumiu que a rota de McVay era segura nesse estágio da guerra.

Muitos navios, incluindo a maioria dos destróieres, foram equipados com equipamento de detecção de submarinos, mas o Indianapolis não foi assim equipado, o que tornou a decisão de recusar o pedido de McVay para uma escolta como um erro trágico.

Durante a corte marcial a que foi submetido, o Capitão McVay (ao centro) demonstra, com o auxílio de uma maquete,  os locais de impacto dos torpedos

Em 24 de julho de 1945, apenas seis dias antes do naufrágio do Indianapolis, o destróier USS Underhill tinha sido atacado e afundado na área por submarinos japoneses. No entanto McVay não foi informado deste evento e vários outros, em parte devido a questões de inteligência classificada. McVay foi avisado da presença potencial de submarinos japoneses, mas não da real atividade confirmada na área.

A última vítima do Indianapolis

O Almirante Chester Nimitz, comandante-em-chefe da Marinha dos EUA, revogou a sentença de McVay e reintegrou-o ao serviço ativo. McVay se aposentou em 1949 no posto de contra-almirante.

Enquanto muitos dos sobreviventes do Indianapolis afirmavam que McVay não era o culpado pelo afundamento, as famílias de alguns dos homens que morreram pensavam o contrário:
– “Feliz Natal! O feriado de nossa família seria muito mais alegre se você não tivesse matado meu filho“, dizia uma das correspondências recebidas, com frequência, por McVay. 

A culpa que foi colocada sobre seus ombros foi crescendo, até que ele se suicidou em 1968, usando seu revólver da Marinha. McVay foi encontrado em seu gramado, na frente de casa, com um marinheiro de brinquedo que havia sido presenteado por seu pai em uma das mãos. McVay tinha 70 anos. No dia do afundamento do Indianápolis, ele comemorava o seu 47º aniversário.

Reparando uma injustiça – Isentado da culpa

Os sobreviventes do USS Indianapolis se organizaram, e, durante muitos anos, passaram a tentar limpar o nome de seu capitão. Muitas pessoas, desde seu filho Charles McVay IV (1925-2012), o autor Dan Kurzman, que relatou o incidente do Indianapolis na crônica Fatal Voyage, e membros do Congresso, que acreditavam ter o Capitão McVay sido injustamente condenado. Paul Murphy, presidente da Organização dos Sobreviventes do USS Indianapolis, afirmou que “a corte marcial do capitão McVay foi uma farsa, foi simplesmente para desviar a atenção da terrível perda de vidas causada por erros de comando da alta cúpula militar naval americana, que não alertaram ninguém sobre a falta do navio, enfim, livrar os almirantes envolvidos.”

A notícia do afundamento do USS Indianapolis foi publicada na imprensa dos EUA no mesmo dia em que foi anunciada a rendição do Japão

Mais de 50 anos após o incidente, um estudante de 12 anos de idade, de Pensacola-Flórida, Hunter Scott, foi fundamental na sensibilização para corrigir a injustiça feita com o capitão na corte marcial.

Como parte de um projeto escolar para o programa de Dia da História Nacional, o jovem entrevistou cerca de 150 sobreviventes do naufrágio do Indianapolis e avaliou 800 documentos. Seu depoimento perante o Congresso dos Estados Unidos atraiu a atenção nacional para a situação.

Em outubro de 2000, o Congresso dos Estados Unidos aprovou uma resolução na qual que os assentamentos do capitão McVay deviam constar que “ele é isentado pela perda do USS Indianapolis.” O presidente Clinton também assinou a resolução.

A resolução observou que, embora várias centenas de navios da Marinha dos EUA tivessem sido perdidos em combate na 2ª Guerra Mundial, McVay foi o único capitão a ser submetido à corte marcial para o naufrágio de seu navio.

Em julho de 2001, o Secretário da Marinha Gordon R. England ordenou a retificação dos assentamentos de McVay inocentado-o de todas as acusações pela perda do cruzador.

http://darozhistoriamilitar.blogspot.com/2015/06/reparando-uma-injustica-tragica.html

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