Agência da ONU envolvida na maior fraude de combustível marítimo do mundo.

Por blog Mar sem fim – Editado p/Cimberley Cáspio

Imagem de mauricianos sinos de óleo
A população das Ilhas Maurício teve contato com o veneno sem saber/Getty Images

A notícia chegou através de matéria da revista Forbes, publicada em 21 de dezembro sob o título Escândalo global de combustível tóxico para navios é revelado pelo derramamento de óleo nas Ilhas Maurício, ou Global Toxic Ship Fuel Scandal Revealed By Mauritius Oil Spill.

A farsa da indústria naval mundial se desfez com o encalhe e  derramamento de óleo causado pelo navio japonês Wakashio.

Uma festa de aniversário a bordo foi a causa do derrame de óleo nas Ilhas Maurício, afirmou o regulador do Panamá (bandeira do navio).

Esta atitude negligente, adiantada por este site quando comentamos o acidente em Maurício, foi confirmada pelo site http://www.scmp.com em matéria de 22 de dezembro. O navio, que deveria passar a 22 milhas das ilhas, aproximou-se porque havia uma festa de aniversário a bordo e oficiais e tripulação queriam ter sinal de celular. Esta foi a razão do pior acidente ambiental marítimo de 2020.

Numa atitude, no mínimo negligente, o capitão e oficiais não tinham cartas náuticas detalhadas das ilhas, nem tomaram qualquer outra providência. Apenas aproximaram-se de tal forma que acabaram por ‘escalar’ um recife de coral a poucos metros da praia, em plena luz do dia e com mar de almirante!

imagem de navio partido ao meio nas Ilhas Maurício
O desastre do MV Wakashio que levantou a trama. Imagem, IMO.

E no centro deste escândalo está um novo combustível experimental usado em grandes navios transoceânicos.

O nome do combustível, Very Low Sulfur Fuel Oil or VLSFO, em tradução livre, Óleo Combustível com Muito Baixo Enxofre. Na verdade o VLSFO não passa de uma mistura de produtos químicos perigosos a ponto de ser apelidado de ‘Frankenstein Fuel’ por ONGs.

imagem do navio MV Wakashio encalhado soltando óleo
Não bastasse a negligência do comandante o combustível ainda era uma ‘bomba’ mortal. Imagem, https://www.scmp.com/.

E faz tempo que este site alerta para dois sérios problemas provocados intencionalmente nos mares do planeta. E totalmente ignorados pela mídia internacional.

Ambos são liderados por indústrias globais fortes. Uma é a da pesca oceânica que, com subsídios que atingem US$ 35 bilhões de dólares ao ano, depredam o que resta da vida marinha impunemente.

A outra, é a indústria de transportes marítimos e a poluição que provocam ao usarem combustíveis altamente poluentes.

E o caso que agora veio à tona é ainda mais escandaloso. A fraude foi descoberta no momento em que a ONU pede que todos os países membros declarem emergência climática e neutralidade em emissões.

imagem do navio MV Wakashio encalhado em Maurício
Imagem, https://www.scmp.com/.

Pior que isso, o escândalo envolve a IMO, Organização Marítima Mundial, uma agência da ONU, em cujo site está escrito:  ‘agência especializada das Nações Unidas responsável pela segurança e proteção dos navios e pela prevenção da poluição marinha e atmosférica por navios. O trabalho da IMO apoia os objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU’.

IMO é tão ‘sustentável’ como a indústria mundial da pesca e seus subsídios.

 A indústria marítima global fez lobby para ser excluída do Acordo de Paris. Para além disso, a Ocean Elders, um grupo global independente integrado por alguns dos titãs da conservação marinha, pede mudanças no tipo de combustível usado pelos navios. Uma espécie de óleo pesado, de consistência que contém uma semigraxa que  precisa ser misturado com diesel igualmente poluente para movimentar as embarcações.

A emissão de CO2 de um navio equivale a mais de 83 mil automóveis. Alguns poluem tanto quanto uma cidade. Os maiores consomem 363.399,5 litros de combustível poluente por dia!

Este é o contexto agora desmascarado pela Forbes. Vamos a ele:

Os meganavios impactados por esse combustível experimental transportam 90% do comércio mundial. Isso inclui grandes navios porta-contêineres para produtos domésticos, navios de carga para produtos agrícolas e industriais e superpetroleiros para petróleo e gás.

A indústria de combustível naval é uma indústria de US$ 150 bilhões por ano que tem sido amplamente favorecida pelo pouco espaço dado na mídia quando o assunto é sobre as discussões do clima.

Foi introduzido às pressas em 1 de janeiro de 2020 pela Agência de Navegação da ONU, a IMO, sem os testes adequados, e agora representa um perigo para a segurança do navio e para o meio ambiente. Para piorar a situação, esse combustível  aumenta ainda mais as emissões de gases de efeito estufa.

O escândalo de combustível naval descoberto parece ser maior do que o Escândalo de emissões da Volkswagen. Envolve alguns dos maiores nomes da indústria global de petróleo e de navegação. E chega ao topo do órgão regulador de navegação da ONU, a Organização Marítima Internacional (IMO).

Como resultado, milhares de navios em todo o mundo estão em risco de falhas catastróficas do motor, colocando em risco a vida de milhões de marinheiros, comunidades costeiras e o meio ambiente oceânico em todo o mundo.

Imagem de Kitack Lim da IMO
Kitack Lim da IMO. Imagem, Forbes.

Em janeiro de 2020, um tipo experimental de combustível de navio  VLSFO foi empurrado para a indústria naval global pelo Secretário-Geral da IMO, Kitack Lim.

O produto químico no qual eles escolheram se concentrar foi o enxofre. O enxofre é um poluente tóxico. É a principal causa da chuva ácida e causa doenças respiratórias prejudiciais a milhões de pessoas em torno das cidades portuárias em todo o mundo, geralmente algumas das comunidades mais pobres que não têm acesso a grupos de defesa poderosos.

Este combustível experimental foi enviado às pressas para navios ao redor do mundo seguindo um cronograma artificialmente rápido (uma política conhecida como ‘IMO 2020’), sem os testes de segurança adequados. Em setembro de 2019, menos de 3% de todos os navios estavam usando VLSFO. No entanto, em janeiro de 2020, isso havia subido para 70% do frete global.

Dezenas de relatórios e reuniões do setor na época da introdução do VLSFO foram dominados pelos perigos do novo combustível.  As investigações descobriram que ele provoca falhas catastróficas de navios em todo o mundo.

seção plenária da IMO em votação pelo combustível VLSFO
Seção plenária da IMO em votação pelo combustível favorável ao VLSFO .Imagem, IMO.

Essas falhas foram causadas por graves problemas de funcionamento do motor no meio do oceano, maiores riscos de incêndio, máquinas críticas ficando entupidas e quebrando, etc.

O derramamento de óleo do Wakashio em Maurício foi o pior pesadelo da indústria naval. Desmascarou a indústria de petróleo e navegação, que imaginava que o segredo permanecesse oculto. Foi a primeira vez que o VLSFO vazou para o oceano.

Depois disso, com que moral o Secretário-Geral da ONU, Antonio Guterres, vai pedir empenho de nações para a neutralidade em emissões? O que restará da credibilidade da ONU já abalada por acusações de proteger certos países em detrimento de outros?

Supostamente, o VLSFO era para ser a “bala de prata” projetada para desviar as críticas ao transporte marítimo global da poluição causada pela indústria na atmosfera e nos oceanos.

Em vez de assumir as emissões prejudiciais de dióxido de carbono e também as emissões de dióxido de enxofre, afastando-se completamente dos combustíveis fósseis, a IMO adotou uma abordagem fragmentada para tentar levar cada toxina sequencialmente em um jogo burocrático para prolongar por  tempo indeterminado o uso de combustíveis fósseis.

Dezenas de relatórios e reuniões do setor naval mundial na época da introdução do VLSFO foram dominados pelas sérias falhas do novo combustível. Isso teve todos os tipos de implicações técnicas, jurídicas e comerciais. As investigações descobriram que ele provoca falhas em motores de navios em todo o mundo.

Imagem de engenheiro em casa de máquinas de navio
Imagem, Getty Images.

E, a despeito dos avisos, a IMO fez ouvidos moucos, e tocou a fraude pra frente. O VLSFO também exigia novas misturas de óleo lubrificante no motor. Errar na combinação criaria um risco catastrófico ainda maior. Isso significa que os engenheiros de bordo tiveram que realizar experimentos químicos em tempo real com o novo e instável combustível  para encontrar uma mistura correspondente.

A trama da IMO parece enredo de filme de espionagem. Todos sabem que a pandemia colocou os transportes mundiais em xeque. Nos primeiros meses, os aviões simplesmente pararam no chão. Isso provocou um excedente do combustível por eles usados.

Havia tanto combustível de aviação que ele foi armazenado em grandes navios-tanque offshore. Além disso, uma guerra de produção entre a Rússia e a Arábia Saudita no início da pandemia significava que havia um excesso de oferta de petróleo no mercado, uma vez que a demanda despencou.

Isso criou condições para que o preço do petróleo bruto se tornasse negativo pela primeira vez na história. Em outras palavras, os produtores de petróleo estavam pagando às empresas para tirar o petróleo deles.

A inusitada situação representou uma oportunidade comercial para a IMO. Muitas empresas de navegação começaram a misturar este combustível de aviação com o VLSFO. 

Com isso,  acabaram produzindo novos ‘Combustíveis Frankenstein’, que se tornaram uma mistura mortal usada para abastecer navios ao redor do mundo.

Quando o combustível das aeronaves não é usado dentro de três meses, micróbios começam a se proliferar onde quer que o estoquem.  A indústria do petróleo estava prestes a perder bilhões de dólares apenas armazenando combustível de aviação em navios-tanque.

Foi então que a indústria naval viu uma oportunidade comercial. Com os preços do óleo cru negativos, a indústria naval foi essencialmente paga para pegar este óleo excedente e misturá-lo na próxima ronda de cocktails VLSFO.

VLSFO, que já era problemático, tornou-se uma bomba química com anuência de produtores como Rússia e Arábia Saudita,  a IMO, e a indústria naval.

As empresas navais de repente viram um óleo de navio muito mais barato à medida que os preços do  VLSFO caíram pela metade, embora a demanda permanecesse constante.

Organização Marítima Internacional , uma agência da ONU, e a indústria naval mundial estavam cientes dos riscos e não tomaram nenhuma providência.

Então o imponderável entrou em cena, e ajudou a desmascarar a farsa em andamento. O MV Wakashio ‘escalou’  um recife de coral na costa das Ilhas Maurício. Com o derramamento da bomba mortal em águas prístinas, a IMO percebeu que seu segredo poderia ser revelado. Que combustível seria aquele capaz de matar peixes e baleias ao menor contato?

imagem do navio MV Wakashio cortado ao meio
O MV Wakashio em Maurício. Imagem,Getty Images.

Para tentar encobrir a fraude, e à guisa de ajudar os mauricianos sem condições de lidar com um acidente de tal porte, a IMO e a indústria do petróleo (por meio da ITOPF com sede em Londres) enviaram centenas de consultores pagos pela indústria do petróleo e da navegação para evitar qualquer outro envolvimento internacional e encobrir as evidências.

A esta altura a ilha Maurício já contava com dezenas de especialistas, ONGs e cientistas que procuravam ajudar na contenção do óleo, os quais, foram expulsos pelo pessoal da IMO que assumiu a coleta de amostras e operação de limpeza, tentando se livrar das evidências antes que as amostras adequadas pudessem ser coletadas.

Foi um movimento ousado e calculado, que também atendeu às grandes resseguradoras internacionais do setor naval, ao buscar reduzir sua responsabilidade pelo derramamento de óleo.

Com isso, mais um player mundial entrou na fraude, as resseguradoras do setor naval. Como o navio estava partido ao meio, os agentes internacionais afundaram a parte do navio que continha os tanques a uma profundidade de 3.000 metros ao largo de Maurício.

O que eles não contavam era o óleo restante escapar devido à pressão naquela profundidade. A mistura química foi liberada no meio ambiente e, em 24 horas, golfinhos e baleias mortos começaram a aparecer nas praias de Maurício exigindo um encobrimento ainda maior.

Imagem da proa do navio sendo afundada
O pessoal da IMO afundou a proa do navio onde ficavam os tanques de veneno. Imagem, Forbes.

Essas ações acabaram desestabilizando politicamente a ilha Maurício que estava em meio a uma revisão do Tribunal de Justiça das disputadas eleições gerais, o que levou centenas de milhares de pessoas a marchar nas ruas da capital, pedindo a renúncia do governo. Acuado, o governo de Maurício desencadeou uma repressão sem precedentes aos direitos humanos no país.

Imagem de convulsão social nas Ilhas Maurício
Convulsão social nas Ilhas Maurício. Imagem, Getty Images.

E tudo com pleno conhecimento da IMO, da indústria do petróleo, e das resseguradoras navais. Nem Ian Fleming seria capaz de conduzir a macabra trama internacional. E quanto mais contradições eram reveladas, mais desesperados ficavam.

Hoje, centenas de milhares de marinheiros permanecem presos em navios ao redor do mundo com combustível não seguro a bordo. Isso representa sérios riscos para o litoral de países próximos às principais rotas marítimas, assim como para os residentes que são espectadores inocentes e ameaçados por novo derramamento devido à introdução do combustível tóxico nos navios que cortam os oceanos.

Forbes encerra a matéria alertando que ‘consertar esse desastre exigirá uma liderança forte e corajosa’.

‘Nos últimos quatro anos, o mundo não teve essa liderança moral. Com a posse de um novo governo dos EUA em janeiro, essa será uma área que eles serão capazes de assumir e demonstrar verdadeira liderança?’

Como ficará a imagem da IMO, e da ONU? Apenas a demissão de seu chefe, Kitack Lim, não será suficiente. A ver o que farão. Nós, continuaremos atentos,  voltaremos ao tema assim que houver novidades.

https://marsemfim.com.br/milhares-de-navios-estao-em-risco-por-fraude-em-combustível/

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